Era o último dia de um grande congresso corporativo.
Enquanto as luzes do palco eram desmontadas e os últimos convidados iam embora, do lado de fora um caminhão estacionava para recolher pilhas de banners, embalagens, restos de montagem, carpetes e sobras de buffet.
Destino? Ninguém sabia ao certo.
Essa cena é mais comum do que parece. E revela um ponto cego importante: muitas empresas falam de ESG, mas deixam a gestão de resíduos para “resolver depois”. Quando, na prática, ela deveria estar no início do planejamento.
Por que resíduos são parte central do ESG
O “E” de ESG fala de impacto ambiental. E nada é mais tangível nesse impacto do que aquilo que a sua operação deixa para trás.
Segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2023, 38,9% dos resíduos coletados no país têm destinação inadequada¹. Isso significa que toneladas de materiais pós-evento ou pós-produção acabam em aterros controlados ou lixões, gerando contaminação do solo, emissões e desperdício de recursos que poderiam ser reinseridos na cadeia.
Não adianta medir sucesso apenas por faturamento, público ou visibilidade se a conta ambiental não fecha. Sem um plano de destinação, o ESG perde consistência (e o mercado percebe).
O custo invisível de não destinar corretamente
Destinação inadequada não é só um problema ambiental. Ela traz riscos legais, prejuízos de reputação e perdas financeiras.
- Risco legal: a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) obriga fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes a darem destinação adequada a produtos e embalagens.
- Risco reputacional: marcas associadas a práticas ambientais negativas perdem espaço em licitações, editais e parcerias.
- Perda de valor: materiais descartados sem aproveitamento representam desperdício de recursos que poderiam gerar receita ou reduzir custos.
Exemplos de quem está fazendo certo
Fundação Egydio: em um projeto com 3.260 estojos produzidos a partir de lona reutilizada, a logística foi pensada desde o início. As lonas chegaram com antecedência, permitindo beneficiar o material, organizar kits e distribuir para costureiras da rede com planejamento. Resultado: mais qualidade no produto final e zero descarte desnecessário.
Musa: empresa que faz gestão de resíduos com compromisso de zero aterro, garantindo que os materiais recebam a destinação correta.
Realixo: iniciativa que faz a compostagem de resíduos orgânicos vindos tanto de eventos quanto da casa das pessoas, fechando o ciclo da matéria orgânica.
Como colocar a destinação no centro da estratégia ESG
- Mapear o fluxo de resíduos: identificar tudo o que é gerado, do início ao fim da operação.
- Priorizar reutilização e reaproveitamento: prolongar o ciclo de vida dos materiais antes de considerar o descarte.
- Escolher fornecedores com certificações ambientais: exigir relatórios e rastreabilidade da destinação.
- Comunicar resultados: incluir indicadores de resíduos e reaproveitamento nos relatórios ESG.
Conclusão
Cuidar dos resíduos é cuidar da credibilidade da sua marca. É fechar o ciclo do ESG não apenas com discurso, mas com prática concreta, mensurável e transparente.
Quando a destinação correta é prioridade desde o primeiro e-mail do projeto, o resultado final não é só um evento ou produto bem-sucedido, é uma operação que deixa rastro positivo para o planeta, para a comunidade e para o próprio negócio.
Referências
¹ ABRELPE. Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2023, p.26, Figura 3.9. Disponível em: https://www.abrema.org.br
² Musa. Disponível em: https://www.musa.co/
³ Realixo. Disponível em: https://realixo.com.br/
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